quinta-feira, 10 de junho de 2010

Viver


Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelas, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite. Tal e qual vovô.
Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos...

(QUINTANA, Mário. Sapato florido. Porto Alegre: Editora Globo, 2005)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dúvidas Pascais


- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta, vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado.
Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
- Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!!!
- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a
mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era... era melhor, sim... ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né?
- É.
- Que dia que ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
- Que dia e que mês?
- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de
Aleluia.
- Um dia depois!
- Não, três dias depois.
- Então morreu na quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta
mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no sábado?
- Claro que não! Se Jesus morreu na sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- Ui...
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido,
não acha?
- Ai Coitada!
- Coitada de quem?
- Da sua professora de catecismo!

(Luis Fernando Veríssimo)

quarta-feira, 17 de março de 2010

O meu guri (Chico Buarque, 1981)

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá

Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

Produção de painel sobre a Declaração dos Direitos da Criança

Produzir um painel com textos verbais e não verbais (imagens), que mostrem situações em que os direitos da criança apresentados na Declaração feita pela ONU são ou tenham sido respeitados ou desrespeitados.

O painel deverá conter pelo menos 4 modelos de texto, sendo

1. Um texto não literário: notícia, reportagem ou artigo jornalístico.

Por exemplo: Escolha uma reportagem (completa ou trecho considerável) sobre crianças de povoados pobres que estão na escola. Monte-a no painel com a legenda: Princípio 7 - "A criança tem direito a instrução gratuita e obrigatória".

2. Um texto literário em verso ou em prosa: poema, letra de música, romance, conto, crônica (completo ou trecho).

Por exemplo: Escolha uma música como "O meu guri", de Chico Buarque, que trata de um menino que nasceu e se criou em situação social de risco, de miséria e crime. Pelo fato de a narração ser construída sob o ponto de vista da mãe, a história ganha ternura e inocência.
Como legenda, coloque o Princípio 4 - " A criança tem direito à segurança social. Para que possa crescer e se desenvolver sadiamente, deve-se assegurar a ela e à sua mãe auxílio e proteção especiais e, particularmente, assistência pré e pós-natal adequada. A criança tem direito a alimentação, moradia, diversão e aos cuidados médicos necessários".

Link para letra e vídeo: http://vagalume.uol.com.br/chico-buarque/o-meu-guri.html(a letra encontra-se no post seguinte a este)

3. Um texto não-verbal: fotografia, reprodução de fotografia, gravura, ilustração, desenho artístico, pintura, reprodução de pintura.



Princípio 10 - "A criança deve ser protegida contra atitudes ou influências que possam induzi-la a qualquer forma de discriminação racial, religiosa ou de outro gênero. Ela deve ser educada num espírito de compreensão, tolerância, amizade para com todos os povos, paz e fraternidade universal, e na consciência de que deverá colocar a sua energia e o seu talento a serviço do próximo".

Foto de Cartier Bresson.

4. Um texto verbal e não-verbal: charge ou tirinha.

Princípio 8 - "Para que sua personalidade se desenvolva de maneira harmoniosa, a criança precisa de amor e compreensão. Na medida do possível, ela deve crescer sob a custódia dos pais ou, caso contrário, numa atmosfera de carinho e segurança moral e material".

Charge de Angeli.




OBSERVAÇÕES:

a)Todos os textos devem ter legenda, ou seja, a transcrição completa ou apenas parcial do Princípio a que se referem.
b) O mínimo é de 4 (quatro textos); mas, por favor, eu sei que vocês podem mais do que isso, então caprichem!
b)Pode haver mais de um texto para o mesmo Princípio - por exemplo, uma charge e uma notícia sobre crianças na escola (Princípio 7).
c) O material do painel, a ordem e a disposição dos textos ficará a critério do grupo. Usem a criatividade e façam um trabalho com conteúdo significativo e beleza.

O resultado será feito em grupo de até 5 pessoas, e exposto nas dependências do Colégio Jardins.

Data de entrega e apresentação: 25 de março de 2010 (quinta-feira).

Valor: 3,0 (três) pontos.

DIVIRTAM-SE, MEUS AMORES!

Qualquer dúvida, escrevam-me: professoradebora@oi.com.br! ;)

quinta-feira, 11 de março de 2010




Sorri,
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristes, vazios

Sorri,
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri,
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri,
Vai mentindo a tua dor
Que ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Quem é você? (Produção textual)


Quem sou eu? Desde que me entendo por gente, faço-me essa pergunta, e até hoje só tive uma conclusão: “só sei que nada sei”. Assim que penso (sim, apenas penso) que sei como são as coisas, vem a vida e “puft” — dá-me uma bofetadinha na cara chamando-me “tolinha”... Ou quando aceito-me “tolinha”, vem a vida e me cobre de sorrisos e esperanças entregando-me o mundo —“é para você, minha querida”...

Ouvi dizer que a gente é o que a gente gosta. E o meu gostar é imenso; caberá tudo aqui? Todas as pessoas, as emoções, os momentos, os sons, os cheiros e os gostos? Caberei dentro do que sou?

De início, usarei os gritos musicais de Gal pra dizer que, sobretudo, “eu sou AMOR da cabeça aos pés”. Sou Gal, com a força e a beleza dos anos 70. Porém, sou Bethaniíssima! Em todos os tempos e lugares, sou Bethânia na alma; na tristeza ou na felicidade, na pobreza ou na riqueza, na saúde ou na doença, sou Bethânia até morrer.

Sou Bahia, samba-de-roda, orixás, axé. Sou Aracaju querendo ser cidade grande. Sou planejamento, organização, curtas distâncias; sou todo-mundo-se-conhece. Sou pôr-do-sol, nascer do sol, final e recomeço. Sou mar e sou do mar. Sou vento no rosto (eparrei, minha mãe!). Sou céu azulíssimo. Sou LIBERDADE.

Sou apego, anotações, listas, bilhetes, diário. Papeis, cadernos, revistas, livros. Mais papeis, mais cadernos, mais revistas, mais livros. Sou filme: sofá de casa, cinema, download — tanto faz. E música... musicalizada musicadora musicomania musicalimento, musicavida. Preciso volta a ser yoga.

Sou choro e vela, mas principalmente sorriso. Sou chiclete sem açúcar, pão integral, suco, sanduíche natural brigando com minha chocolatria. Sou doce, dulcíssima. Sou superlativo. Sou exagero.

Sou beijo e abraço, mensagem no celular, poema no Orkut. Sou horas ao telefone. Sou MSN. Sou ônibus, um dia serei carro, e adoraria ser moto. Sou viagem e saudade. Sou carnaval de Olinda, Verão Sergipe, Forró-Caju (o ano inteiro). Sou Curta-se, Notívagos, Rua da Cultura, Beco dos Cocos. Sou as chuvas de julho completando o sol do ano inteiro. Não sou Natal nem Ano Novo. Sou sexta-feira e sempre pronta. Sou, sem querer, shopping. Sou supermercado, geladeira cheia. Não sou cerveja nem cigarro decididamente.

Sou tapioca recheada, cuscuz com ovo, macaxeira de qualquer jeito. Sou suco de laranja in natura, pirão, caranguejo, sushi. Sou lanchonete, banquinho, esquina.

Sou banho tomado, sandália rasteira, cabelo sempre cacheado, vestido e arco-íris. Tinha asco, mas hoje ando sendo rosa (pink, que o rosa-bebê é demais pra mim). Sou poá, listrinhas, xadrezinho, chita, flores. Ah, como sou flores!

Sou colheita de amigos, horinhas de descuido, cuidados maternais. Sou titia! Sou rituais, fotografias, pinturas, arte. Os nus de Modigliani, a festa de Romero Britto, a brejeirice de Di Cavalcanti, a (in)sensatez de Dali, a paixão de Magritte, a fluidez de Klimt, a vanguarda de Warhol. Sou notebook, movimento, dança (sou a vontade da dança). Sou vontade.

Sou Capitu e os olhos de cigana oblíqua e dissimulada; Macabea e a rejeição do mundo; Fraülein e o amor intransitivo; Dona Flor, danada! Sou Fernanda Young e o corpo tatuado; Elisa Lucinda e o amor descarado. Sou Pessoa e a lucidez; Bandeira e a verdade; Vinicius e a malícia; Leminsk, rápido e certeiro.

Sou sala de aula e planos e planos e planos. Quero ser mais. E caberá mais em mim? Sim, sim. Sempre cabe. Sou infinito.

(texto de Débora Souza)


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

s i m s i m s i m



SIM, são três letrinhas
Todas bonitinhas
Fáceis de dizer
Ditas por você
Nesse seu sim, assim
Outras três também
Representam NÃO
Que não fica bem no seu coração

É minha canção, resto de oração
Que fugiu da igreja
Não quis mais do vinho
Foi tomar cerveja
Voltou ao jardim

E tá esperando gente
Que só disse SIM

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Conto de Artur Oscar Lopes

Notícias


CORREIO DO POVO 27/09/73
Informações

Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deve ser pessoa sensível, que goste de ouvir música, seja alegre, que goste de passear domingo de manhã, que goste de pescar, que goste de passear na relva úmida da manhã, que seja carinhoso, que sussurre aos meus ouvidos que me ama, que tenha bom humor, mas que também saiba chorar. Que saiba escutar o canto dos pássaros, que não se importe de dormir ao relento numa noite de lua, que saiba caminhar nas estrelas, que goste de tomar banho de chuva, que sonhe acordado e que goste muito do azul do céu. Prefere-se pessoa que saiba escutar os segredos de um riacho e que não ligue aos marulhos do mar; que goste de bife com arroz e feijão, mas que prefira peru com maçã, dá-se preferência a pessoas de pés quentes, que gostem de andar de barco, que gostem de amar e que não puxem as cobertas de noite. Não se exige que seja rico, de boa aparência, que entenda Kafka ou saiba consertar eletrodomésticos mas exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando.
End.: Rua da Esperança, 43.


CORREIO DO POVO 02/10/73
Informações

Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de oferecer flores.
End.: Rua da Esperança, 43.


CORREIO DO POVO 10/10/73
Informações

Maria Joana Knijnick procura pessoa que a ame e goste de oferecer flores de vez em quando.
End.: Rua da Esperança, 43.


CORREIO DO POVO 20/10/73
Informações

Maria Joana Knijnick pede que qualquer pessoa goste dela e suplica que lhe mande flores.


CORREIO DO POVO 14/11/73
Informações

A família da sempre lembrada Maria Joana Knijnick comunica o trágico desaparecimento daquele ente querido e convida os amigos para o ato de sepultamento. Pede-se não enviar flores.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Crônica (produção audio-visual)

Mais um trabalhinho legal pra vocês:

PARTE 1

Dividida em equipes de 4 pessoas, a turma deve montar uma seleção de "crônicas musicais" cuja estrutura apresente encaminhamento semelhante ao de uma crônica.

Há sugestões de 20 músicas no quadro "Para ouvir", na página 88 do nosso livro didático. Caso escolham outra canção que não esteja aí proposta, é necessário que o grupo a apresente à professora para que se analise se atende ou não à estrutura do gênero textual crônica.

Escolhida a música, a equipe deve preparar uma breve apresentação de slides no programa PowerPoint, ou no sítio YouTube, fazendo a associação entre música e imagens que possam ilustrar o seu encaminhamento. O tempo de duração do vídeo com as imagens será, naturalmente, o tempo de duração da música. Ao final dele, é necessário acrescentar um slide com informaçãoes como: nome do colégio, disciplina, professor (Débora Souza), data e nome dos integrantes da equipe.

Podem ser usadas fotos pessoais, desde que tenham relação com o texto apresentado. Não serão admitidas imagens com conteúdo pornográfico. Basta ter bom senso! ;)

Durante a apresentação para a turma, É OBRIGATÓRIO que seja entregue aos colegas uma cópia da letra da música, para que possam acompanhar a análise proposta pelo grupo.
O vídeo deve ser preferencialmente gravado em mídia digital (CD ou DVD) e, se possível, estar disponível na internete.


PARTE 2

A equipe deve produzir um texto com a seguinte estrutura:

O 1º parágrafo deve descrever a música escolhida: quem compôs, quem cantou, quem gravou, na voz de quem ela é mais conhecida, em que ano foi lançada, em que álbum está, qual o estilo musical etc.

O 2º parágrafo deve argumentar porque a canção escolhida pode ser considerada uma "crônica musical": que características em comum ela tem com o gênero estudado? sobre o que ela trata? qual o ponto de vista do autor? Que comportamento humano está sendo objeto de reflexão? etc. Prove suas ideias a partir de citações contidas no texto.
  • Atenção! As perguntas acima servem como orientação para construir o seu texto! Veja o modelo na postagem anterior deste blog (com a música O que sobrou do céu, d'O Rappa) e utilize o seu livro didático para um auxílio teórico.
  • DATA DE ENTREGA/APRESENTAÇÃO: 22/10/2009 (quinta-feira).
  • VALOR: 3,0 pontos para a Unidade V.

O que sobrou do céu (O Rappa)


Faltou luz, mas era dia
O sol invadiu a sala
Fez da tv um espelho
Refletindo o que a gente esquecia

Faltou luz, mas era dia

O som das crianças brincando nas ruas
Como se fosse um quintal
A cerveja gelada na esquina
Como se espantasse o mal

Um chá pra curar esta azia
Um bom chá pra curar esta azia

Todas as ciências
De baixa tecnologia
Todas as cores escondidas
Nas nuvens da rotina

Pra gente ver
Por entre os prédios e nós
Pra gente ver

O que sobrou do céu


O que sobrou do céu é uma canção d'O Rappa, com letra de Marcelo Yuka(ex-baterista do grupo). Ela foi lançada em 1999, no seu terceiro álbum,intitulado Lado B Lado A. O Rappa é uma banda brasileira conhecida por suas letras de forte impacto social. Seu ritmo não é exatamente definido nem mesmo pela própria banda. Embora seja de início principalmente reggae e rock, a banda também incorporou elementos de samba, funk, hip-hop, rap e MPB.

A letra de O que sobrou do céu pode ser considerada uma crônica musical, pois nela o autor observa a realidade do seu cotidiano de maneira diferenciada, buscando revelar o que está por trás das aparências. A falta de energia elétrica - e a consequente impossibilidade momentânea de assistir à tv - serve como ponto de partida para uma reflexão mais profunda sobre um ponto específico do comportamento humano. Marcelo Yuka diz que somos viciados a olhar para a televisão e para as outras tecnologias, criando uma "nuvem" que não nos deixa ver o quão bela pode ser nossa rotina. As crianças brincando na rua, a cerveja no bar da esquina e o chá para curar a azia são alguns dos fatos que passam à nossa volta e nos parecem insignificantes, destituídos do valor que os bens de consumo e o glamour dos artistas parece ter. O autor nos convida a interpretar esses pequenos momentos como preciosidades, como resultado de um paraíso perdido, do que sobrou do céu.
Foto: Victor Balde

terça-feira, 6 de outubro de 2009

FILTRO SOLAR (crônica)


http://www.youtube.com/watch?v=Owmw9Kb6GVs&feature=related

Nunca deixem de usar o filtro solar. Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria esta: usem o filtro solar! Os benefícios a longo prazo do uso de filtro solar estão provados e comprovados pela ciência,já o resto de meus conselhos não têm outra base confiável além de minha própria experiência errante. Mas agora eu vou compartilhar esses conselhos com vocês...

Aproveite bem, o máximo que puder, o poder e a beleza da juventude. Ou, então, esquece... Você nunca vai entender mesmo o poder e a beleza da juventude até que tenham se apagado. Mas pode crer que daqui a vinte anos você vai evocar as suas fotos, e perceber, de um jeito que você nem desconfia hoje em dia, quantas tantas alternativas se escancaravam à sua frente. E como você realmente estava com tudo em cima,você não está gordo ou gorda...

Não se preocupe com o futuro. Ou então preocupe-se, se quiser, mas saiba que "pré-ocupação" é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar resolver uma equação de álgebra. As encrencas de verdade em sua vida tendem a vir de coisas que nunca passaram pela sua cabeça preocupada,e te pegam no ponto fraco às 4 da tarde de uma
terça-feira modorrenta.

Todo dia, enfrente pelo menos uma coisa que te meta medo de verdade.

Cante.

Não seja leviano com o coração dos outros. Não ature gente de coração leviano.

Use fio dental.

Não perca tempo com inveja. Às vezes se está por cima, às vezes por baixo. A peleja é longa e, no fim, é só você contra você mesmo. Não esqueça os elogios que receber.
Esqueça as ofensas. Se conseguir isso, me ensine. Guarde as antigas cartas de amor. Jogue fora os extratos bancários velhos.

Estique-se.

Não se sinta culpado por não saber o que fazer da vida. As pessoas mais interessantes que eu conheço não sabiam, aos 22 o que queriam fazer da vida. Alguns dos quarentões mais interessantes que eu conheço ainda não sabem.

Tome bastante cálcio. Seja cuidadoso com os joelhos. Você vai sentir falta deles.

Talvez você case, talvez não. Talvez tenha filhos, talvez não. Talvez se divorcie aos quarenta, talvez dance ciranda em suas bodas de diamante.

Faça o que fizer, mas não se auto congratule demais, nem seja severo demais com você. As suas escolhas tem sempre metade das chances de dar certo, é assim para todo mundo.

Desfrute de seu corpo use-o de toda maneira que puder, mesmo! Não tenha medo de seu corpo ou do que as outras pessoas possam achar dele, é o mais incrível instrumento que você jamais vai possuir.

Dance. Mesmo que não tenha aonde além de seu próprio quarto. Leia as instruções, mesmo que não vá segui-las depois. Não leia revistas de beleza, elas só vão fazer você se achar feio.

Dedique-se a conhecer seus pais. É impossível prever quando eles terão ido embora, de vez. Seja legal com seus irmãos. Eles são a melhor ponte com o seu passado e possivelmente quem vai sempre mesmo te apoiar no futuro. Entenda que amigos vão e vem, mas nunca abra mão de uns poucos e bons.

Esforce-se de verdade para diminuir as distâncias geográficas e de estilos de vida, porque quanto mais velho você ficar, mais você vai precisar das pessoas que você conheceu quando jovem.

More uma vez em Nova York, mas vá embora antes de endurecer. More uma vez no Havaí, mas se mande antes de amolecer.

Viaje.

Aceite certas verdades inescapáveis: os preços vão subir, os políticos vão saracotear, você também vai envelhecer. E quando isso acontecer, você vai fantasiar que quando era jovem os preços eram razoáveis, os políticos eram decentes, e as crianças respeitavam os mais velhos.

Respeite os mais velhos! E não espere que ninguém segure a sua barra. Talvez você arrume uma boa aposentadoria privada. Talvez você case com um bom partido, mas não esqueça que um dos dois de repente pode acabar.

Não mexa demais nos cabelos se não quando você chegar aos 40 vai aparentar 85.

Cuidado com os conselhos que comprar, mas seja paciente com aqueles que os oferecem. Conselho é uma forma de nostalgia. Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo, repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do
que vale.

Mas, no filtro solar, acredite.

TIM COX
(tradução de Pedro Bial)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"Sexa"


- Pai…
- Hmmm?
- Como é o feminino de sexo?
- O quê?
- O feminino de sexo.
- Não têm.
- Sexo não tem feminino?
- Não.
- Só tem sexo masculino?
- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra “sexo” é masculino. O sexo masculino, o sexo feminino.
- Não devia ser “a sexa”?
- Não.
- Por que não?
- Porque não! Desculpa. Porque não. “Sexo” é sempre masculino.
- O sexo da mulher é masculino?
- É. Não! O sexo da mulher é feminino.
- E como é o feminino?
- Sexo mesmo. Igual ao do homem.
- O sexo da mulher é igual ao do homem?
- É. Quer dizer… Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo?
- Certo.
- São duas coisas diferentes.
- Então como é o feminino de sexo?
- É igual ao masculino.
- Mas não são diferentes.
- Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra.
- Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.
- A palavra é masculina.
- Não. “A palavra” é feminino. Se fosse masculina seria “o pal…”
- Chega! Vai brincar, vai.

O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:
- Temos que ficar de olho nesse guri…
- Por quê?
- Ele só pensa em gramática.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti, 1972.